domingo, janeiro 21, 2018

Fragmentos

(Angélina Nové)


Percebeu que se rasgara por dentro quando sentiu o travo agridoce do sangue. Teria mais cuidado quando pusesse pedaços de coração de volta dentro do peito.



quarta-feira, janeiro 17, 2018

Amizade entre iguais

(imagem daqui)


Paco e Irene tinham chegado há duas semanas à cidade. Estranharam o frio, a chuva, a aridez da língua que não enrolava os erres nem soava a canção de amor. Traziam pouca coisa na bagagem, três mudas de roupa, artigos de higiene básica e os documentos de identificação. Zabelita, chegada uns meses antes, alugara-lhes um apartamento na periferia. Sabiam que não seria suficiente para grande coisa, mas nada os fazia prever a degradação do bairro. Nem o taxista quisera entrar no emaranhado de ruas estreitas, tão estreitas que parecia terem voltado ao local que tinham abandonado em busca de uma vida menos dura.
Paco tirou do bolso do casaco coçado o papel onde anotara o endereço que passaria a ser o deles.  Irene limitava-se a segui-lo, olhos negros ainda mais negros de aflição. 
O prédio, cinzento e negro das chuvas, já tinha sido azul. Viam-se manchas da tinta antiga aqui e ali, à  mistura com as pichagens. Tentaram usar o elevador, em vão. Subiram as escadas esconsas até ao 4º Esq.-Frente. A chave estaria debaixo do vaso branco, ao fundo do corredor, dissera-lhes Zabelita. Parecia-lhes extraordinário que assim fosse, mas estava lá. Franquearam a entrada. Apesar da pobreza, estava tudo limpo e, em cima da mesa da cozinha, bananas e laranjas davam uma nota alegre.
Irene abeirou-se da janela. Num repente, um pardalito veio bicar o vidro. Sorriu, pela primeira vez desde há muito, e repetiu o som das bicadas com o dedo, pelo lado de dentro. 
-¿Vamos a descansar un poco ?, perguntou Paco.
-¡Sí, es mejor !, respondeu.
Acordaram com o vento a fustigar a persiana. 
-Voy a buscar fruta para comermos., disse Irene, levantando-se a custo.
Na janela da cozinha, o pardalito aninhava-se num recanto, como que esperando-a, apesar da neve. Mal deu conta da sua presença, retomou as bicadas. Irene descascou uma banana, esmagou um pedaço e, abrindo a vidraça com cuidado, estendeu-o na mão aberta à avezita que não se fez rogada à refeição. Olhava-a nos olhos entre cada degustação, como se lhe quisesse agradecer. 
-Irene! 
Paco chamava-a
-Excusa. ¿Nos vemos después?
O passarinho chilreou, como que a responder-lhe e ela, antes de fechar a janela, tirou a fruta do cesto, forrou-o com um pano, protegendo a parte de cima com uma cobertura improvisada de um saco de plástico, deixando o abrigo bem entalado no parapeito para que não fosse levado pelo vento.
-Ahora que tengo un amigo, va a ser más fácil., pensou Irene, sorrindo, enquanto via o chilreador acomodar-se.


sexta-feira, janeiro 12, 2018

Inverno

(Saatchi Art Artist Lazar Lekovic; Photography, "Winter day in the forest")



Winter trees


All the complicated details

of the attiring and

the disattiring are completed!

A liquid moon

moves gently among

the long branches.

Thus having prepared their buds

against a sure winter

the wise trees

stand sleeping in the cold



William Carlos Williams









Árvores de Inverno


Todos os detalhes complicados do vestir e do despir estão completos! Uma lua líquida move-se suavemente entre os longos ramos. Tendo preparado os seus rebentos contra um inverno certo as sábias árvores erguem-se dormindo ao frio.

William Carlos Williams traduzido por Maria Eu

terça-feira, janeiro 09, 2018

Coração

(Amy Friend)



                       
                                                        saber                  escrevia
                                              Sem             como                  na
                                                 forma                             doce
                                                    terna                      suave
                                                           de                um
                                                                coração
                        




      

domingo, dezembro 31, 2017

E 2018 aqui tão perto!

Em louvor das crianças

 "(...)
   Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso.
   A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue.
(...)"

 Eugénio de Andrade, in Rosto Precário (Limiar, 1979, Assírio  Alvim, 2015)




Quem me acode à cabeça e ao coração
neste fim de ano, entre alegria e dor?
Que sonho, que mistério, que oração?
Amor.

(Carlos Drummond de Andrade)

(Gustav Klimt - A árvore da vida)

Desejo-vos que tenham o peito aberto às maravilhas do mundo, sendo sempre capazes desse mistério maior que é o Amor!

quarta-feira, dezembro 27, 2017

Sweet Amélia

(“Tales of The Unexpected” for UK Vogue December 2008 photographed by Tim Walker)



Caem pétalas de malmequeres
Despindo a flor até ao cálice
nos sonhos brancos de Amélia
Bem-me-quer, mal me quer, …

Sopra Éolo, de Barlavento
Levando-as, penas de gaivota
Corrupio alvo no azul do mar
Bem-me-quer, mal me quer…

Lengalenga com nome de flor
Bate ritmado o coração de Amélia
Despe-se de pétalas, cálice do amor
Oferenda ardente de bem querer