quinta-feira, abril 26, 2018

Abril





azul
gaivotas famintas longe
longe do mar

vermelho
cravos sem armas
aos ombros

sal, sangue, grito
ABRIL




quarta-feira, abril 18, 2018

Enquanto for o tempo

(Dorina Costras)


Vive o amor com sofreguidão. Pega-lhe com ambas as mãos, olha-o de frente, bem no fundo dos olhos, beija-o na boca e deixa-te ficar enquanto for o tempo dele. 


domingo, abril 08, 2018

Bananas

(Debra Sisson)

Era a décima dos irmãos. Bem, julgava sê-lo, porque soubera que tinham sido quinze. Dois nados mortos e três que não haviam resistido  a poucos meses de vida. A casa transformara-se quinze vezes em maternidade, com gritos de dor ecoando pelos corredores e mulheres em correrias entre a cozinha e o quarto onde tudo se passava, transportando panelas de água quente e baldes com panos brancos que não tardavam em regressar manchados de sangue e vómito. Contara-lhe uma das irmãs, mais velha vinte anos, que a mãe desaparecia de circulação durante um mês, alimentada a caldos de galinha e bolachas de baunilha. 
Bolachas de baunilha? perguntara, de olhos arregalados. Aquilo era luxo que só entrava em casa pela Páscoa!
E bananas! acrescentara a irmã.
Bananas!!! Isso é que era bom!!! A tia Antonieta trazia sempre bananas quando vinha de visita do Porto. Bananas, ananás dos Açores e tabletes de chocolate "A Vianense".

Sacudiu o torpor das pernas debilitadas, esticou-se até às canadianas, e ergueu-se, a custo, do sofá onde passava os dias. Na fruteira da cozinha havia um cacho de bananas da Madeira mesmo no ponto de serem comidas.


terça-feira, março 27, 2018

Ressurreição



(Tina Maria Elena)


Arderam num incêndio de tal forma prolongado que nada restou senão cinzas. Dispersaram-se, juntas, levadas pelo vento, e perderam-se no mar. 
Diz-se que, nas noites de luar, eles regressam à praia, erguendo-se da espuma das ondas, e se deitam juntos, até arderem de novo, uma e outra vez.


domingo, março 18, 2018

Mãos de dar


(Stephen Morris)

Do seu menos de um metro de altura, esticava-se, em bicos de pés, para beijar o rosto jovem da sua mãe. Depois, ela dava-lhe a mão e seguiam, tagarelando.

Do alto da sua altura adulta, dobrava-se, joelhos quase a tocar o chão, para beijar o rosto enrugado da sua mãe. Depois, sentava-se ao lado da cama, segurando-lhe a mão, enquanto lhe contava do mundo lá fora.


terça-feira, março 06, 2018

Dos momentos felizes

(Joan Miro)

Já fui feliz:
a colher malmequeres amarelos e a fazer deles grinaldas e colares de princesa;
a trepar às figueiras e cerejeiras para comer frutos maduros; 
a fazer casas nas árvores, bonecas em espanto suspensas nos ramos;
a saltar à corda, jogar à macaca e ao pião nos caminhos da aldeia;
a brincar na areia da praia, e a chapinhar na água do rio e do mar;
a ler noite dentro toda a espécie de livros, até de lanterna, debaixo dos lençóis;
a aninhar-me na cama dos meus pais ao Domingo de manhã;
a cantar e  a rir ruidosamente, na cozinha, com a irmã e a mãe;
a sonhar com o rapaz de sorriso bonito que morava na mesma rua;
a ouvir discos de vinil de música francesa e programas de rádio;
a comer arroz de grelos com chouriça e bolo de canela à sobremesa;
a andar nos carrinhos de choque e no carrossel em festas populares;
a dar as mãos, coração em sobressalto, sem que ninguém visse;
a beijar e a ser beijada, sempre como se fosse a primeira vez;
a imaginar o rosto do meu filho, ainda por nascer;
a tê-lo nos braços, ainda enrugado, mesmo que a chorar;
a ver lugares, edifícios, arte e povos diversos;
a manifestar-me, bandeiras e slogans, pelos direitos (meus e de outros);
a aninhar-me nos braços  de quem amo;
...
Já fui tão feliz!