domingo, maio 21, 2017

Domingo



Era Domingo e ao Domingo preguiçava entre lençóis até mais tarde. Deixava o sol entrar lá pelas nove, ia buscar um sumo de laranja, um croissant e uns morangos, numa bandeja, e aproveitava para dar um avanço nas leituras que a voragem da semana mal lhe permitia aflorar. Só pelas doze saía para um passeio pela beira-rio. A prata líquida, refulgindo sobrevoada pelas gaivotas em elegantes passos de dança, nunca cessava de a encantar. Era ali, naquele reflexo argênteo, que se deixava enlear pela beleza que lhe escapava na pressa dos demais dias.


domingo, maio 14, 2017

Se eu...



Se fosse uma hora do dia, seria o entardecer.
Se fosse uma estrela, seria Nashira.
Se fosse uma direcção, seria um traçado irregular.
Se fosse um móvel, seria uma chaise-longue.
Se fosse um líquido, seria água fresca.
Se fosse um pecado, seria a luxúria.
Se fosse uma virtude, seria a generosidade.
Se fosse uma pedra, seria rubi.
Se fosse um monumento, seria o mais pequeno e simples de todos.
Se fosse uma árvore, seria uma oliveira.
Se fosse um fruto, seria uma cereja.
Se fosse um clima, seria o temperado marítimo.
Se fosse uma ave, seria uma gaivota.
Se fosse um instrumento musical, seria uma guitarra.
Se fosse um elemento, seria o fogo.
Se fosse uma cor, seria o vermelho.
Se fosse um animal, seria um gato.
Se fosse um som, seria o do vento nas árvores.
Se fosse uma flor, seria um cravo vermelho.
Se fosse uma música, seria “Wild is the wind", Nina Simone .
Se fosse um estilo musical, seria tango.
Se fosse um sentimento, seria a alegria.
Se fosse um livro, seria de poemas.
Se fosse uma comida, seria gelado de limão com chocolate quente.
Se fosse um lugar, seria uma ilha (com as coisas e as pessoas que amo).
Se fosse um gosto, seria o da canela.
Se fosse um cheiro, seria o do mar.
Se fosse uma palavra, seria «paixão».
Se fosse um verbo, seria «cuidar».
Se fosse um objecto, seria um livro.
Se fosse uma peça de roupa, seria uma écharpe.
Se fosse uma parte do corpo, seria a boca.
Se fosse uma expressão facial, seria um sorriso.
Se fosse uma personagem de BD, seria  a Mafalda (sempre questionadora).
Se fosse um filme, seria “Casablanca” .
Se fosse uma forma, seria oval.
Se fosse um número, seria o 8.
Se fosse uma estação do ano, seria a Primavera.


quarta-feira, maio 10, 2017

Quand la vie était plus rose.

(Michael Carson)


Maria do Rosário olhava Alberto com ternura, enquanto lhe cortava uma fatia generosa de torta de cenoura. Ah, como o tempo fora pouco magnânimo para com ele! Recordava-o ainda muito jovem, talvez com uns catorze anos, sorrindo-lhe timidamente durante as aulas de Francês da Madame Rose. Ela não se dava muito com os colegas de turma. Regressara há pouco de África e era tudo tão novo que chegava a ser assustador. Tinha saudades do sol, do calor, da liberdade de ir à praia ao fim da tarde, da Nhá Siara e do Tito. De comer mangas maduras até lhe doer a barriga... 
Rosarinho, como lhe chamavam à época, dera para sonhar com os olhos ternos de Alberto e, um dia, num arroubo de loucura, escreveu-lhe um bilhete.


Alberto, gosto de ti, sabes? Podes acompanhar-me a casa no final das aulas, se quiseres.


Rosarinho

Mal terminou de passar os exercícios de gramática que a professora Laurinda escrevera no quadro, lançou-se porta da sala fora, coração aos pulos, arrependida do que tinha feito. Estacou no portão do Liceu ao ouvir o seu nome na voz doce de Alberto. Sentiu a respiração ofegante dele, olhou-o, envergonhada, e, sem que nada o previsse, ele pespegou-lhe um beijo ruidoso na bochecha e pegou-lhe na mão para a levar a casa.

Fora há cinquenta anos. 


segunda-feira, maio 01, 2017

Papagaios (corrente Palmier)



Caiu a noite, a mulher deixou a bolsa pousada no sofá e saiu para a floresta. Os papagaios, amigos do sol, deram lugar aos mochos. Foi assim que regressou ao fundo branco da casa, de blusa amarela não-Neusa, com um mocho empoleirado em cada ombro.
(na continuação da saga da Palmier, seguida pela Linda, pela Flor, pela Mirone, pela ana, pela Cuca, pela Luísa e pelo Manel)


segunda-feira, abril 24, 2017

La vie pas en rose

(René Magritte)

Sabia que estava vivo. O coração batia, ritmado, e o sangue coloria-lhe as veias que lhe mapeavam o corpo num emaranhado de linhas que, absurdamente, ao invés de vermelhas apareciam azuis na pele branca. Lembrou-se como se cortara com a navalha do pai, uma vez, quando miúdo, para ver se tinha sangue azul. Sorriu. Azul, como o que diziam ter a Rosarinho de Albuquerque, que se sentava na carteira à frente da sua nas aulas de Francês da Madame Rose. Era linda, a Rosarinho! Pena que olhasse todos com um ar tão… altivo.
Sabia que estava vivo, mas não era capaz de conjugar o verbo être no passé composé e a Rosarinho ria-se, todos se riam. Até o Petit Patapouf parecia troçar, em Francês, claro!
- Alberto! chamou uma voz feminina.
Quem seria aquela? Lembrava-lhe vagamente alguém. Talvez uma colega da turma? Ah! Quase de certeza que era uma daquelas que se sentavam lá atrás e nunca queriam ir ao quadro. Sim, uma dessas.
- Alberto! Então? Trouxe-te torta de cenoura. Tu sempre gostaste da minha torta de cenoura. Raro foi o fim de semana da nossa vida em comum em que não a fiz para sobremesa. Estás a falar Francês, homem? Para o que te havia de dar!