domingo, outubro 15, 2017

Infância

(Yana Ilieva)


                                                              Inocência
                                                              Núcleo
                                                              Felicidade
                                                              Ânsia
                                                              Navegação
                                                              Carícia
                                                              Imaginação
                                                              Abrigo



terça-feira, outubro 10, 2017

Nascer gaivota

(Marc Chagall)

Era nas pequenas coisas que o amor fazia questão em manifestar-se: uma luz inexplicável no olhar, o coração acelerado, um humedecer de lábios, o eco de um riso à toa. Naquele dia, sentou-se à mesa da esplanada, atrevido, e contou-lhe de uma praia onde se nascia gaivota. Foi então que, sem surpresa, lhe cresceram asas e voou com ele.


domingo, outubro 01, 2017

Maria da Conceição

(George Clausen)

Corria o ano de 1950, Maria da Conceição tinha dez anos feitos há poucos dias quando a levaram do casebre de duas assoalhadas onde vivia com os pais e cinco irmãos. Num saco de serapilheira, três pares de cuecas de pano cru, duas combinações de terylene azul claro, um vestido azul escuro muito lavado, já com manchas brancas de tanto ser esfregado no tanque de pedra, e três pares de meias passajadas. A mãe não lhe dissera grande coisa, só a levantara mais cedo que o costume. Vem aí uma senhora da vila buscar-te, rapariga. Diz que te tem visto na missa e que lhe pareces de bom tamanho para a ajudares na lida da casa. Bem falta nos faz, mais uma jorna! Ela não percebera muito bem o que aquilo queria dizer até se ver puxada pelo braço para dentro de um automóvel branco por uma senhora gorda, com um cheiro tão doce que até o estômago se lhe revoltara. Minha mãe! Minha mãe! Chamara. Mas a mãe olhara-a sem pestanejar, e voltara-lhe as costas antes que desaparecesse na primeira curva da estrada.
Precisara de um banco para chegar à tábua de passar a ferro e engomar as blusas de linho fino da menina Carlota. Vê lá como as deixas, rapariguinha! Lava bem as mãos antes de lhes tocares! A menina vai usá-las para ir para o Liceu!

Maria da Conceição lembrou-se disso, hoje, enquanto abotoava a blusa de seda, que passara impecavelmente a ferro ontem à tarde, diante da janela debruada a cortinas de cores alegres da sua cozinha branca. Senhora de si mesma!
Suspirou, deixou as más lembranças para trás, e saiu para ir votar.


segunda-feira, setembro 18, 2017

Disse-lhe



Disse-lhe do mar, ora eivado de azul forte ou claro, das nuvens que corriam, ligeiras, competindo com bandos de gaivotas. Disse-lhe da imensidão da praia, das dunas castigadas pelo vento norte onde crescem cardos marítimos.
Nos olhos de ambos, um veleiro.


domingo, setembro 03, 2017

Urge Setembro


Nem sempre Agosto se veste de azul e oiro, ou há risos de meninos ao ligar inesperado dos aspersores da rega do jardim. Às vezes, vestem-se os dias de horas longas em que as roseiras crescem desordenadamente, deixando que os espinhos rasguem os dedos da jardineira, uma e outra vez.
Urgem nuvens que lavem o sangue das feridas da jardineira. Urge um Setembro, de orvalhos matinais, de frutos sumarentos. Urge o cicatrizar das feridas

sexta-feira, agosto 18, 2017

Narrador omnisciente

(Anna Kowalewicz)

Caía a noite devagar no quintal dos Avelares. A figueira secular estendia os braços fortes em direcção às janelas da sala de estar, como que a querer abri-las de par em par. Lá dentro, a luz difusa de um candeeiro de pé iluminava o cadeirão de couro castanho, onde uma mulher de rosto sardento se aninhava, descalça, embrenhada na leitura de um livro que, a avaliar pela sua expressão, deveria ser extremamente interessante.
Quem não se deixou impressionar pelo entusiasmo da leitora foram as duas crianças loiras que correram sala dentro, tropeçando no tapete persa, obrigando-a a acudir-lhes ao choro pouco convicto, mas que logo lhes serviu de desculpa para a puxarem numa dança de roda.
- Anda brincar, Mariana!
E Mariana rodopiou, dançou, cantou, rebolou no chão com elas em brincadeiras mil. Ouviam-se as gargalhadas cristalinas das três a ecoar pela casa. Só a mão terna do pai das mais pequenas conseguiu levá-las e deixar que o livro fosse retomado. De novo aberto, os olhos ávidos liam as palavras interrompidas. Havia, no entanto, para um observador mais atento, um pormenor estranho… Nunca a leitora mudara de página.
O narrador, felizmente capaz de fazer-se absolutamente invisível e espreitar-lhe por cima do ombro, aproximou-se, pé ante pé, e pôde enfim ver a prosa que tanto a encantava. Dentro do livro, o respeitável “Ensaios e artigos” de Agustina, numa folha de papel amarelo, um poema escrito à mão, a esferográfica de tinta azul, com letra elegante, marcadamente masculina, levemente inclinada para a direita. No fundo da folha, um nome, local e data. Os dedos de Mariana acariciavam os caracteres da assinatura e os olhos mantinham a avidez do primeiro minuto em que a vira no sofá da sala.


sábado, agosto 12, 2017

13 para o almoço

(Henri Matisse)

Da cozinha, evolava-se um aroma a carne assada com alecrim, à mistura com o da torta de cenoura acabada de desenformar. A voz alegre de Vó Nita cantarolava:

"Menina estás à janela
com o teu cabelo à lua
não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua

Sem levar uma prenda tua
sem levar uma prenda dela
com o teu cabelo à lua
menina estás à janela

(...)"

Faltava pouco para a hora de almoço e, na mesa da cozinha grande, já luzia a toalha de bordado azul e vermelho à Vianesa, com os pratos do serviço de festa, os talheres de alpaca e os copos a brilharem de tão limpos. Seriam 13. Alguns diriam que 13 não seria número de comensais a sentar a uma mesa, mas Vó Nita nunca se deixara levar por superstições. Nascera-lhe mais uma bisneta em Abril. Logo em Abril, o seu mês! Havia de ser levada, essa menina, pela certa. Touro! Apaixonada, com sangue quente, teimosa e lutadora. Como ela! Sorriu, enquanto ajeitava a cadeirinha no topo da mesa. Qual azar, qual quê, se o número 13 era a sua Mariana.



segunda-feira, agosto 07, 2017

Viagem de comboio

(Fanny Nushka, in Saatchiart)

O anúncio sonoro da chegada do comboio despertou-a do torpor ensonado da espera de mais de vinte minutos. Um frenesim apoderou-se dos passageiros em espera. O ruído das malas a rodar fazia lembrar metralhadoras. Carruagem 5, lugar 83, janela. Acomoda-se rapidamente, puxa a mesa do suporte, retira o livro da bolsa e, antes que o consiga abrir, um rapaz nos seus dezoito, barba crescida, cabelo rebelde, óculos de massa e vestuário "certinho", atira-se, literalmente, para o seu lado, enquanto acomoda um saco de dimensões consideráveis por baixo do banco da frente. Os esforços para encaixar o volumoso objecto são acompanhados de uma espécie de resfolegar e gestos largos. Tão largos que a obrigam a encolher-se de encontro à janela qual mosca indesejada. Apaziguado, o rapaz saca de um embrulho gorduroso e faz aparecer um hambúrguer que seria devorado enquanto o diabo esfregava um olho. Inclina-se para o saco que ainda há pouco se esforçara para acomodar espetando-lhe o cotovelo esquerdo repetidamente na cintura. Não conseguira colar-se à janela devidamente, pelos vistos. De nada valeram os olhares mortíferos ou os suspiros profundos e desaprovadores. O jovem mergulhara no telemóvel e os phones tornavam-no surdo. Mais de duas horas depois e, seguramente, umas nódoas negras por baixo da blusa branca de tanta agitação cotovelar, o pequeno selvagem levantou-se de um salto ao anúncio da próxima estação e puxou o saco com tanta violência que o fez estatelar-se no corredor. Mesmo dorida das cotoveladas, Clara desatou às gargalhadas. Afinal, não seria a única a levar umas mazelas da viagem.

quarta-feira, agosto 02, 2017

#parecesasvelhotas

(fotografia de  Ari Seth Cohen, do Advanced Style)

Sais com as filhas das tuas amigas (que tu só tens um rapaz e dele só ouves que #parecesasvelhotas) e, de repente, elas estão a experimentar as socas que tu usavas aos quinze, com aquela plataforma de dez centímetros, de vestidos compridos "flower power" e bolsas à tiracolo com franjas. Na verdade, se fores ao baú onde guardas os álbuns podes mostrar-lhes aquela foto na praia, num grupo de raparigas muito sorridente, tal e qual elas. Folheando o mesmo álbum, há aquela, em biquini reduzido, com laços de lado (oh, pá, que não tinha barriga nem nada), pirosa que só visto, em cima de uma rocha, ao pôr do sol, em pose cinéfila para o fotógrafo, um rapazinho moreno que te lera poemas nesse Verão. 
É então que perguntas à menina da loja se tem o teu número das socas, em castanho, e as raparigas se riem e acham que és uma cota muito à frente. Tu, que lhes fazes companhia, de jeans bordadas, túnica em crochet e sapatilhas! Cota! Pois... #parecesasvelhotas, não adianta!

E não, não lhes disse que li Eça aos treze anos porque isso ia ser fatal! Embora, intercalados, tivessem estado Hergé e Hugo Pratt.

*Versão muito light de uma corrente de posts iniciada pela Susana ,continuada pelo Pipoco, pelo Xilre e pela Linda Blue.

quinta-feira, julho 27, 2017

Morrer


(Robert Gonsalves)

Sentia-se morrer. Estranhamente, morrer não era aquilo que mais a assustava. O que a fazia sofrer era a ideia de nunca mais ver o mundo pelos olhos dele.


terça-feira, julho 18, 2017

Os amantes

(Fresco de Pompeia)

Os amantes sabem-se de cor
têm-se mapeados na polpa dos dedos
desenhados na pele que percorre o caminho
da nuca, vértebra a vértebra, até ao sacro


Os amantes, como os pássaros,
Cruzam os céus em voos estonteantes
Rasam os perigos sem medo, cantando
Sem que gaiola alguma os aprisione


quinta-feira, julho 13, 2017

Parecenças II


Chegado a casa, o Engenheiro Castro, António Alberto de seu nome, subiu apressadamente a escada que dava para o quarto, libertando-se da roupa em gestos largos, enquanto se dirigia ao duche, deixando-a peça a peça, quais peles de animais esfolados, caída pelo chão. Mariana, sempre com o seu aventalinho imaculadamente branco destacando-se no preto do uniforme, logo se encarregaria de a recolher, uma a uma, curvando-se elegantemente, como ele tanto gostava de apreciar, deixando que as curvas deliciosamente arredondadas das ancas e do rabo rematassem as pernas em tensão muscular.
Ah! Mariana! Como lhe conhecia as pregas mais recônditas, os sinais escuros na mama direita, a marca arroxeada, de nascença, em forma de borboleta, na base da nuca, que ficava a descoberto quando desviava o cabelo! Tinham crescido juntos e, desde a morte do pai e da mãe naquele terrível acidente de automóvel, era nela que encontrava aconchego e carinho. Escapava-se do quartinho esconso nos anexos da casa dos Cunha e Villar e corria para os seus (a)braços (ou melhor, a dar-lhe os seus) noite após noite, numa entrega total, sem nunca pedir nada a não ser umas horas de carícias e palavras ternas.
Foi a ela que perguntou, ainda impressionado com a parecença com o falecido: Meu amor, achas-me assim tão igual ao burgesso do Joãozinho?
Foi também ela que, com voz doce e apaixonada, entre beijos ardentes, o sossegou: Nem pensar, meu adorado! Tu és muito mais bonito!

Nós, que sabemos como são as mulheres apaixonadas e os homens demasiado crédulos, sorrimos, enquanto cogitamos se o pai do engenheiro e a mãe do Joãzinho não teriam, como rezam as más línguas da aldeia, caído na tentação da carne.


quinta-feira, julho 06, 2017

Nos quatro anos do Xilre

(Mark Rothko)

Quem não gostaria de ter um pássaro cantor no beiral e  de receber cartas manuscritas a tinta azul cobalto, com a caneta S. T. Dupont Olympio de J. Eustáquio de Andrada? 
O Xilre é, a um tempo, um romântico que derrete o coração de qualquer Orchidée e, a outro, um analista minucioso da realidade. Entramos na sua casa sempre à espera de ficarmos maravilhados e saímos, muitas vezes, mais do que enriquecidos, curiosos, prontos para saber mais, seja de música, de literatura, ou de minudências que a outros nunca ocorreriam observar ou descrever. É que é um blog tão em bom, tão em bom, que até gerou um movimento blogosférico com piratas, flores, palmiers, pipoco(a)s, e todo um exército de bloggers para o sitiarmos onde não o pudéssemos perder.
Longa vida, caro Xilre! Hip! Hip! Hurra!


quarta-feira, junho 21, 2017

Parecenças I

(unknown painter)

Foi pelas quinze horas, a canícula abafava até os miados dos gatos, que a notícia da morte do Joãozinho Villar chegou. Veio escrita a tinta preta, numa letra trémula, mas elegante, gravada num cartão. Mariana, a empregada (criada, como ainda lhe chamam os patrões), calcorreara o caminho íngreme que distava da casa grande dos Cunha e Villar, ataviada no uniforme preto de cetim, aventalinho branco pespontado a renda e toucado igualmente alvo no cocuruto da cabeça ornamentada com uma trança enrolada de cabelos negros. "É para entregar ao Sr. Engenheiro!", dissera, já pronta a seguir caminho com uma considerável quantidade de cartões na mão.
O Engenheiro Castro leu o cartão com um franzir de testa, ainda enrolado no seu roupão azul escuro com um belo dragão bordado a dourado, comprado nos tempos áureos das viagens ao Oriente. Ah! Bons tempos, aqueles em que os pais desembolsavam quantias avultadas  para educar o seu menino para uma visão eclética e mundana!
Vestiu o fato preto, camisa branca, gravata igualmente preta. Olhou-se ao espelho com ar satisfeito. O cabelo ainda forte e ondulado penteado para trás, o bigode levemente retorcido nas pontas que o fazia parecer-se extraordinariamente com o bisavô Cunha e Castro. Suspirou, e saiu para a torreira do sol, encaminhando-se para o velório.
Cruzado o portão da casa dos Villares, não lhe foi difícil perceber onde a família velava o falecido. A porta verde da sala de visitas do rés-do-chão, aberta de par em par, deixava que se ouvisse o ruído abafado do terço, rezado em tom monótono por vozes femininas.
Franqueou a entrada. Lá estava o Joãozinho, enfiado num casaco azul-marinho de trespasse, camisa azul clara, gravata azul com pequenos brasões amarelos e calças cinzentas. Tal e qual os uniformes da banda de música! A barriga proeminente quase rebentava os botões dourados do casaco. Mas... agora reparava, o bigode era igualzinho ao seu e o cabelo... Meu Deus, o cabelo! Forte, ondulado, penteado para trás! Foi cumprimentar as senhoras da casa. "Tia, que desgraça! Foi tão inesperado! Prima, lamentável!" E, de sopetão, atiram-lhe: "Mas que parecido estás com ele! Até comentámos quando entraste! Credo! Não o soubéssemos cadáver, entrava agora pela porta da frente!"
Ficou uns minutos à conversa, contrariado, nervoso. Pensava entretanto: Em chegando a casa rapo o bigode e penteio o cabelo para o lado! Parecido com o morto! Só essa me faltava! Semelhante ao parolo com vestimenta de músico da banda da terra!


domingo, junho 04, 2017

Destino

(Aja, Scotia, NY, USA.)

Joana crescera bravia, sempre de sapatos na mão e joelhos esfolados pelas muitas incursões aos quintais dos vizinhos, equilibrada em reentrâncias de muros ou ramos de árvores, mãos estendidas. Divertia-se a caçar lagartixas. Puxava-as pelo rabo e depois, largava-as, correndo atrás delas à gargalhada. Também lhe não escapavam os figos suculentos do Sr. José D'Além ou as uvas americanas da D.ª Rosinha. Quase apanhara com um chumbeiro de espingarda de pressão, num dia em que a confundiram com um pilha-galinhas. "Ai, Jasus, menina, que tu és mas é douda!"
Quisessem encontrá-la, era no campo ou, então, de cabeça metida num livro, fosse qual fosse, a sonhar.

António crescera à solta, habituado a roupas leves, fáceis de despir para entrar na água do mar. Não havia vento que mais do que o afagasse, nem maré que deixasse de o acolher. Brincara aos piratas e construíra fortes onde travara batalhas mil. Sonhara com sereias e raparigas de olhos estrelados com os pés nus na areia da praia. Quase morrera afogado, num dia em que mergulhara mais fundo e mais afoito. "Ai, Jasus, menino, que tu és mas é doudo!"
Quisessem encontrá-lo era na  praia, ou, então, de cabeça metida num livro, fosse qual fosse, a sonhar.

Cruzar-se-iam, mais tarde, nem numa praia, nem no campo, nem sequer numa livraria, e diriam, baixinho, um ao outro: "Ai, Jasus, que nós somos mas é doudos!"
Construíram uma biblioteca.


sexta-feira, junho 02, 2017

"selinho Blog em bom"



Ouvi dizer que há um panda bebé moribundo porque falta uma resposta ao desafio do Pipoco neste canto. Lembrou-se a NM de vir desinquietar-me com a seguinte mensagem: "Foste envolvida no movimento "selinho Blog em bom", tens agora vinte e quatro horas para escolher um blog que gostasses de ser, explicando-nos, num post, porque é que aquele blog é mesmo um blog em bom e para desafiares mais cinco bloggers para este interessante desafio que pretende promover o convívio entre todos os bloggers, ou então um panda bebé morrerá e todos sabemos que os pandas são animais fofinhos que não merecem falecer só porque alguém não responde a um desafio." 

Ah, se eu fosse um Blog em bom! Seria... E não é que o Impontual fez uma mistura bem engendrada, a Uva acrescentou mais uns quantos, ali, do lado direito tenho muitos, e não me decido qual gostaria de ser? Cada um tem um pouco do lirismo, da sensualidade, da loucura, do humor, da acidez, da cultura, do sarcasmo, da generosidade, de todas as coisas que gostaria de ter.
Mas já que o panda está a olhar para mim de olhos vidrados, e muitos já foram escolhidos, direi que, fosse eu um blog em bom, seria o atravessado, do rapaz das oito pernas (ou serão braços?). Ele é dono de palavras que atravessam tempestades e tem o coração sempre ao rubro, tanto que quase o vemos a sair-lhe pela boca. Não há, nas sombras que desenha, senão luz. 

Para continuar esta "onda" de selinhos, nomeio:
- O próprio Manel, do atravessado.


Sei que vou fugir à regra, mas deixo aos visitantes que ainda não foram nomeados, a vontade de participarem.

quarta-feira, maio 31, 2017

Nada breve

(Amedeo Modigliani)


Disseram-lhe que apagasse o sorriso. Breve, previam-no. O amor é sempre feito de um raio de luz que se desvanece num tempo apertado, tão estreito como os abraços que lhe punham estrelas no olhar. Mal sabiam que o seu amor resistia a lábios cerrados e a olhos rasos de água. A luz habitava-lhe o coração, incendiando-a de dentro para fora. 
Nada breve, o sorriso. Nada breve, o amor.


sexta-feira, maio 26, 2017

Begónias no passeio

(Philip Guston)

A rapariga da muleta deixou cair a muleta.
O fogo espalhou-se, abriram-se
as borboletas
num susto evidente,
fizeram fila os táxis.
Os prédios mais altos, tão francos,
tão estruturalmente com varandas,
tão soprados
pelo soluço dos que nascem.
As borboletas cada vez mais altas,
as borboletas sem táxi, a varanda que caiu
com as flores intactas
da tua febre. Tenho agora o desastre
da tua roupa no meu chão,
o sangue feliz.


Vasco Gato





Espantou-se com as begónias que, sem mais nem porquê, cresciam no passeio esburacado. Ainda ontem era um deserto de pedras irregulares com arestas duras, ratoeiras para os passantes mais incautos. Perguntou à rapariga de vestido branco quem plantara as flores assim, tão de repente. Pois que ninguém sabia, respondeu-lhe com os olhos brilhantes e felizes, mas tinham sido vistas dezenas de borboletas coloridas, em dança rodopiante pela rua. Fora enquanto elas dançavam que uma varanda caíra e espalhara flores pelo chão cinzento. Havia também quem afirmasse ter visto o amor, de sorriso nos lábios e gestos doces, a regar as begónias noite dentro, enquanto no quarto da varanda que cedera, Maria e José se perdiam, como que trémulos de febre, em carícias mil.

domingo, maio 21, 2017

Domingo



Era Domingo e ao Domingo preguiçava entre lençóis até mais tarde. Deixava o sol entrar lá pelas nove, ia buscar um sumo de laranja, um croissant e uns morangos, numa bandeja, e aproveitava para dar um avanço nas leituras que a voragem da semana mal lhe permitia aflorar. Só pelas doze saía para um passeio pela beira-rio. A prata líquida, refulgindo sobrevoada pelas gaivotas em elegantes passos de dança, nunca cessava de a encantar. Era ali, naquele reflexo argênteo, que se deixava enlear pela beleza que lhe escapava na pressa dos demais dias.


domingo, maio 14, 2017

Se eu...



Se fosse uma hora do dia, seria o entardecer.
Se fosse uma estrela, seria Nashira.
Se fosse uma direcção, seria um traçado irregular.
Se fosse um móvel, seria uma chaise-longue.
Se fosse um líquido, seria água fresca.
Se fosse um pecado, seria a luxúria.
Se fosse uma virtude, seria a generosidade.
Se fosse uma pedra, seria rubi.
Se fosse um monumento, seria o mais pequeno e simples de todos.
Se fosse uma árvore, seria uma oliveira.
Se fosse um fruto, seria uma cereja.
Se fosse um clima, seria o temperado marítimo.
Se fosse uma ave, seria uma gaivota.
Se fosse um instrumento musical, seria uma guitarra.
Se fosse um elemento, seria o fogo.
Se fosse uma cor, seria o vermelho.
Se fosse um animal, seria um gato.
Se fosse um som, seria o do vento nas árvores.
Se fosse uma flor, seria um cravo vermelho.
Se fosse uma música, seria “Wild is the wind", Nina Simone .
Se fosse um estilo musical, seria tango.
Se fosse um sentimento, seria a alegria.
Se fosse um livro, seria de poemas.
Se fosse uma comida, seria gelado de limão com chocolate quente.
Se fosse um lugar, seria uma ilha (com as coisas e as pessoas que amo).
Se fosse um gosto, seria o da canela.
Se fosse um cheiro, seria o do mar.
Se fosse uma palavra, seria «paixão».
Se fosse um verbo, seria «cuidar».
Se fosse um objecto, seria um livro.
Se fosse uma peça de roupa, seria uma écharpe.
Se fosse uma parte do corpo, seria a boca.
Se fosse uma expressão facial, seria um sorriso.
Se fosse uma personagem de BD, seria  a Mafalda (sempre questionadora).
Se fosse um filme, seria “Casablanca” .
Se fosse uma forma, seria oval.
Se fosse um número, seria o 8.
Se fosse uma estação do ano, seria a Primavera.


quarta-feira, maio 10, 2017

Quand la vie était plus rose.

(Michael Carson)


Maria do Rosário olhava Alberto com ternura, enquanto lhe cortava uma fatia generosa de torta de cenoura. Ah, como o tempo fora pouco magnânimo para com ele! Recordava-o ainda muito jovem, talvez com uns catorze anos, sorrindo-lhe timidamente durante as aulas de Francês da Madame Rose. Ela não se dava muito com os colegas de turma. Regressara há pouco de África e era tudo tão novo que chegava a ser assustador. Tinha saudades do sol, do calor, da liberdade de ir à praia ao fim da tarde, da Nhá Siara e do Tito. De comer mangas maduras até lhe doer a barriga... 
Rosarinho, como lhe chamavam à época, dera para sonhar com os olhos ternos de Alberto e, um dia, num arroubo de loucura, escreveu-lhe um bilhete.


Alberto, gosto de ti, sabes? Podes acompanhar-me a casa no final das aulas, se quiseres.


Rosarinho

Mal terminou de passar os exercícios de gramática que a professora Laurinda escrevera no quadro, lançou-se porta da sala fora, coração aos pulos, arrependida do que tinha feito. Estacou no portão do Liceu ao ouvir o seu nome na voz doce de Alberto. Sentiu a respiração ofegante dele, olhou-o, envergonhada, e, sem que nada o previsse, ele pespegou-lhe um beijo ruidoso na bochecha e pegou-lhe na mão para a levar a casa.

Fora há cinquenta anos. 


segunda-feira, maio 01, 2017

Papagaios (corrente Palmier)



Caiu a noite, a mulher deixou a bolsa pousada no sofá e saiu para a floresta. Os papagaios, amigos do sol, deram lugar aos mochos. Foi assim que regressou ao fundo branco da casa, de blusa amarela não-Neusa, com um mocho empoleirado em cada ombro.
(na continuação da saga da Palmier, seguida pela Linda, pela Flor, pela Mirone, pela ana, pela Cuca, pela Luísa e pelo Manel)


segunda-feira, abril 24, 2017

La vie pas en rose

(René Magritte)

Sabia que estava vivo. O coração batia, ritmado, e o sangue coloria-lhe as veias que lhe mapeavam o corpo num emaranhado de linhas que, absurdamente, ao invés de vermelhas apareciam azuis na pele branca. Lembrou-se como se cortara com a navalha do pai, uma vez, quando miúdo, para ver se tinha sangue azul. Sorriu. Azul, como o que diziam ter a Rosarinho de Albuquerque, que se sentava na carteira à frente da sua nas aulas de Francês da Madame Rose. Era linda, a Rosarinho! Pena que olhasse todos com um ar tão… altivo.
Sabia que estava vivo, mas não era capaz de conjugar o verbo être no passé composé e a Rosarinho ria-se, todos se riam. Até o Petit Patapouf parecia troçar, em Francês, claro!
- Alberto! chamou uma voz feminina.
Quem seria aquela? Lembrava-lhe vagamente alguém. Talvez uma colega da turma? Ah! Quase de certeza que era uma daquelas que se sentavam lá atrás e nunca queriam ir ao quadro. Sim, uma dessas.
- Alberto! Então? Trouxe-te torta de cenoura. Tu sempre gostaste da minha torta de cenoura. Raro foi o fim de semana da nossa vida em comum em que não a fiz para sobremesa. Estás a falar Francês, homem? Para o que te havia de dar!



quinta-feira, abril 06, 2017

Micas

(Pierre Bonnard)

Micas espreguiçou-se dengosamente. O sol viera cedo, e a vida entrava-lhe toda pela janela dentro em cheiros (torradas, café, flores, relva cortada, perfumes almiscarados e frutados), ruídos (risos, conversas, motores em andamento e em travagens, chilreios nos mais diversos tons) e cores (o azul claríssimo do céu pincelado do branco das nuvens). Sentiu-se particularmente tentada a debruçar-se na janela e ver o fervilhar da rua primaveril. Saltou para as costas do sofá amarelo e sentou-se no parapeito já aquecido pela temperatura amena, o pêlo dourado e brilhante refulgindo como âmbar.
-Micas! Micas! chamou uma voz doce de menina.

- Deve ser a Clarinha! pensou Micas. E, num salto ágil e elástico, voltou ao chão, ronronando até às mãos ternas da dona.


terça-feira, março 28, 2017

Filmes a ver

SAINT GEORGE (São Jorge, 2016) by Marco Martins [Trailer] from Richard Lormand on Vimeo.


Fica um gosto amargo na boca, uma dor que parece nossa, que é nossa. Há uma Lisboa que não é a que amas, a que visitas pela luz, pela cor, pela beleza que te entra olhos dentro logo que avistas a gare do Oriente. Há uma solidão que fere, uma miséria que trespassa qualquer aparência, os ossos à vista. E depois, há um homem que carrega tudo isso num trabalho admirável: Nuno Lopes, em São Jorge, de Marco Martins.

domingo, março 26, 2017

Chama

(Ron Hicks)

De seda, os lábios
rubros
De linho, as mãos
nevadas
Em uníssono, ardem
noutros lábios,
noutras mãos

Juntos, feitos chama.


terça-feira, março 21, 2017

Embalo


Clara amanhecera cedo, por isso, deixara-se ficar na quentura dos lençóis até que o toque estridente do despertador soasse. Da rua, chegam-lhe chilreios alegres dos pássaros que ocupam, sem pagarem renda, as copas das árvores que lhe (s)ombreiam a janela do quarto, à mistura com o ruído difuso dos motores de um ou outro automóvel madrugador. De súbito, uma voz feminina entoa uma canção. Apura o ouvido, já que a acoroçoada melodia de gorjeios torna difícil distinguir a cantiga. Por fim, consegue! A voz clara e límpida ergue-se numa canção de embalar.

Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será pra ti
Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar
Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor
Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô

Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme quinda à noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer
Ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô, ô


Bela, a canção do Zeca no feminino! Sorriu e desligou o despertador. Afinal, há sons melhores para começar o dia!




quinta-feira, março 16, 2017

Despedida

(Edvard Munch)

- O meu pai é bonito, não é?
Clara acenou que sim num movimento pouco convincente, dada a circunstância. O homem, num fato escuro, camisa branca e gravata de riscas azuis, com uma flor na botoeira, jazia, hirto, num caixão pejado de flores. 
Percebeu melhor a perda dela no dia seguinte, vendo-a desorientada na casa grande, abrindo e fechando portas e gavetas, olhando as fotografias emolduradas espalhadas pelos móveis. 
- Não sei! Não sei arrumar as coisas deles!
As da mãe continuavam ali, depois de  cinco anos. O frasco de perfume favorito quase vazio, o bâton cor de rosa, as malas alinhadas por tamanho, as roupas... Tinham acompanhado as do homem bonito que a amara, quem sabe tocando-se pela calada da noite, numa mistura de fragrâncias rescendendo a flores e a cedro.
- Amanhã! Amanhã venho ver das arrumações! Como é que os separo aos dois? Como é que me separo dos dois?
Clara abraçou-a longamente, sem palavras. Depois, fechando a porta à chave, saíram para o sol, de braço dado.


segunda-feira, março 13, 2017

Imperfeita perfeição

(Nadia Beltei)

De onde advém a perfeição da junção de dois corpos imperfeitos? De onde, senão da súbita e intensa luz de que são tomados na beleza da entrega?


quinta-feira, março 02, 2017

Saudade do que não foi

(daqui)

Deu por si a pensar que a saudade é estranha. Sentia saudade de tudo o que não tinha feito com ela. Dos lugares que não tinham visitado, das vezes em que não se tinham beijado, das palavras doces que não tinham dito, dos sonhos que não tinham partilhado. 
Olhou-a com ternura e entrelaçou os dedos nos dela.


terça-feira, fevereiro 21, 2017

A convalescença de Cupido

(Joseph Lorusso)

Cupido mexeu-se cuidadosamente, em equilíbrio periclitante. As asas tinham ficado intactas, apenas um pouco dobradas. Soube que estava a sangrar pelo travo adocicado na boca. 
-Raios! pensou. Lá fiquei outra vez com a cara feita num bolo! É no que dá acertar em mim mesmo com uma seta e passar o tempo todo a pensar na Psiquê! 
Esvoaçou pelo local do acidente à procura do arco e das flechas. Lá estavam, no passeio fronteiro ao prédio que se lhe atravessara no caminho. 
-Por Marte! exclamou. Faltam-me duas setas.
Entretanto, num banco do jardim do bairro, Maria, mulher madura, conhecida pela sua simpatia contida e conduta discreta, abraçava José, homem circunspecto e cauteloso no trato. Bocas unidas num beijo aceso, descobriam o fogo que, afinal, ardia dentro deles sem se ver.
Cupido avistou-os e reparou que, num braço de Maria e nas costas de José, refulgiam as hastes das flechas perdidas.
-A seu tempo! pensou Cupido. A seu tempo!


terça-feira, fevereiro 14, 2017

O acidente de Cupido

(daqui)

Marta e João conheciam-se há bastante tempo. Nunca tinham, contudo, olhado um para o outro com outros olhos que não os de cordial vizinhança. Aproximava-se o dia de São Valentim, aquele tão falado em tudo o que era rede social, canal de televisão, anúncios de perfumes, chocolates, peluches e afins. Marta sentia-se inquieta e João não se sentia menos. Se ela acordara mais alegre e vestira uma saia florida, combinada com uma blusa branca e um casaco vermelho, ele trauteava Velvet Underground desde cedo e perfumara-se com Only, da Givenchy. Saíram de casa com um sorriso nos lábios e uma estranha vontade de dançar. A chuva dera uma trégua e a temperatura parecera ter adoçado para os ver passar. Ela vinha do número 100, 3.º Esq., ele vinha do número 100, 1.º Dto.. Tudo se conjugava para que se cruzassem ao subirem a rua em direcção ao auditório musical. Sim, porque os dois tinham comprado bilhete para o concerto de piano com obras de Beethoven que começaria dentro em pouco. Ele seguia em passo largo, ela em passinhos miúdos, evitando as fendas da calçada, não fossem os tacões dos elegantes sapatos estragarem-se. Quase se ouvia a excitação no ar. Ambos de faces rosadas pela caminhada, ambos felizes e expectantes. De repente, um ruído ensurdecedor. Estavam a centímetros um do outro. Marta sentia a fragrância de Only. João podia ver uma nesga do rubro do casaco dela. Olharam para cima. De encontro à parede do prédio, Cupido gemia, ferido, perdido o arco, caídas as flechas. Suspiraram em simultâneo e seguiram caminho, entrando ele pela porta principal e ela pela do lado direito. Não se sabe se Cupido recuperou a tempo de juntar os dois.


segunda-feira, fevereiro 13, 2017

Sedução

(Jack Vettriano)


-Diz-me algo bonito! pediu-lhe, sorrindo.
-Tu! disse-lhe, olhando-a, perigosamente perto de um beijo.



quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Diz-me

Diz-me

Diz-me, amor
onde
fica
o lírio roxo
do 
teu
sexo túrgido
na sede
do 
meu.

Diz-me, amor
onde
encontro
a alma branca
do
pássaro 
azul,
tu.




(Loui Jover)



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segunda-feira, fevereiro 06, 2017

Primeira viagem

(Pablo Picasso)

O vento sibila agudamente ecoando nas persianas, corridas na previsão de tempestade. Bátegas intensas de chuva castigam as paredes e as grades da varanda, compondo uma música ensurdecedora. Marta encolhe-se no sofá, manta de xadrez vermelho e bege agasalhando-lhe as pernas, sem conseguir ler o livro que comprara no dia anterior, Confissões de uma máscara, de Yukio Mishima. 
Não passara da primeira frase: "Durante muito tempo, sustentei que era capaz de me lembrar de coisas que tinha visto na altura do meu nascimento."
Fosse da fúria do temporal ou da incapacidade de avançar para além destas parcas palavras, Marta sentiu-se como que viajando no tempo, até ao momento exacto em que o médico a puxava de dentro da mãe. Os olhos cegos pela luz e pelos fluídos, o corpo dorido da curta mas dura odisseia, o golpe no cordão umbilical, o grito a custo arrancado da garganta minúscula, boca escancarada, sinal da vida, sua, princípio. A estranheza do ar nos pulmões, da roupa que lhe tolhia os braços e as pernas. Os cheiros. Meu Deus, os cheiros intensíssimos a invadi-la, a confundi-la. Mãos. Muitas mãos no seu corpo cansado e tenro. O sossego breve no peito da mãe, a voragem da fome na aproximação inexperiente aos mamilos castanhos e túrgidos.  
O vento acalmara. A chuva era agora mais mansa. Marta dorme, como dormira nesse dia primeiro, rendida ao cansaço.


sexta-feira, fevereiro 03, 2017

Beijos

(Kees van Dongen)


A mulher de blusa branca sentou-se na mesa ao lado da dele. Parecia alheada do ruído das conversas, das loiças e dos pedidos feitos pelos empregados do café ao Sr. Arlindo, homem de farfalhudo bigode por detrás do balcão. Um vibrar do telemóvel fê-la atender. Por entre as outras vozes, conseguiu ouvir a dela, doce:
"-Doem-me os lábios dos beijos que te não dou!"



segunda-feira, janeiro 30, 2017

Já morri e renasci


(Mark Rothko)

Já vivi depois de muitas mortes

morta na espera do grito inicial
demorava, mas veio, depois do vómito
cinquenta e um centímetros de altura
rosto marcado pela luta primeira 

morta de telefone na mão
foi agora, há destroços na estrada
viva ao segundo telefonema
a voz dela, da que te embalou

morta nas letras a negro na carta
ainda havia graus - Grau IV
viva, de bata azul, o medo frio
as palavras não - livre - descansar

morta no corpo ferido dele
mãe, não vejo, mãe, mãe
viva, a custo, nas salas brancas
no seu olhar menos preciso, mas seu


sábado, janeiro 28, 2017

Para lá do olhar


Mariana, a mulher de olhar doce e fundas olheiras, chegara à empresa há pouco mais de um ano. Era Verão e estranharam-lhe as mangas compridas e as blusas de botões apertados até ao colarinho, embrulhadas naquela quietude tímida que trazia pela manhã e a deixava quase sempre calada até à hora de saída. De nada lhe valia a educação impecável ou o trabalho dedicado. As colegas de escritório não lhe perdoavam o distanciamento nas conversas durante as pausas para café ou as ausências nos almoços  de convívio mensais. 
"- Já viste a deslavada da contabilidade? Pffffffff! Sempre de olhos baixos, sempre coberta da cabeça aos pés!"
"- Coitada, deve ter uma doença de pele, para se cobrir daquela maneira!"
Foi então que, numa manhã de segunda-feira, Mariana tropeçou no tapete da porta de entrada, batendo com a cabeça e desmaiando. Chamaram o 112 e João Carlos, o telefonista que em tempos fizera dois anos na escola de enfermagem, começou a desapertar-lhe a blusa na tentativa de a ajudar a respirar melhor. Aos olhos de todos, apareceu a justificação para tanto cuidado. O peito estava coberto de cicatrizes, assim como o braço desnudado pelo técnico do INEM para medir a tensão.
Houve um murmúrio inquieto. Soube-se mais tarde que Mariana nem era sequer o nome verdadeiro da rapariga da contabilidade. Há muito que fugia de um companheiro violento que quase a matara de pancada porque ela se atrevia a ir tomar café sem ele.


domingo, janeiro 22, 2017

Como a água à sede do deserto


MA PIÙ CHE MAI...

Dall'inizio mi manchi,
come l'acqua alla sete del deserto.

Mi manchi quando ti cammino a fianco:
non vanno nella  stessa direzione,
se non breve tratto,
due treni su binari paralleli.

Mi manchi quando sono con un'altra(o)
come manca la freccia alla ferita
che per la sua estrazine si dissangua.

Ogni giorno mi manchi; e in ogni dove
perché all'assenza di te
non c'è un altrove.

Corrado Calabrò


(Salvador Dali)


MAIS QUE NUNCA

Desde o início faltas-me
como a água à sede do deserto.

Faltas-me quando ando ao teu lado:
não procedem na mesma direcção,
senão por breve troço,
dois comboios em carris paralelos.

Também me faltas quando estou com outra(o)
como falta a flecha à ferida que pela sua extracção se dessangra.

Cada dia me faltas; e em toda a parte
porque para a ausência de ti
não há algures.

Corrado Calabrò, traduzido por Giulia Lanciani no livro A penúria de ti enche-me a alma



terça-feira, janeiro 17, 2017

Era uma vez uma buganvília



Ela e a buganvília  tinham crescido par a par. Teria uns três anos quando a mãe trouxe aquele arbusto pequenino e a chamou para a ajudar a plantá-lo ao lado das escadas da varanda. Conseguia recordar a sensação estranha das mãos na terra húmida, orientadas pelas da mãe. 
"-Devagar, Clarinha! Vamos carregar mais um bocadinho junto ao pé. Olha que linda, vês?"
"-Assim, mãe? As mãos 'stão sujas! Não faz mal?"
Sentava-se ao lado dela, no primeiro degrau, com a boneca Marta, o urso Tino e os tachos e panelas de alumínio comprados na última romaria, e ali se deixava ficar, conversando, como se fossem duas amigas.
E assim foi subindo nas escadas, à medida que a buganvília trepava, espalhando sombra e flores rosadas. A Marta e o Tino foram ficando na prateleira, sendo substituídos pelos livros delicodoces de Max du Veuzit (Clara sabe, hoje, que Max era, afinal, pseudónimo de  Alphonsine Vavasseur-Archer Simonete, num tempo em que às mulheres não ficava bem escrever romances), retirados da poeira do sótão e em cujas páginas havia sempre um amor difícil mas que terminava bem. 
O arbusto era já bastante forte quando Eça de Queirós apareceu em casa, numa colecção novinha, encadernada a verde, com letras douradas. Foi um amor tão grande, mas tão grande, que não leu mais nada durante aquelas féria de Verão. Chegou, até, a ler passagens de A Relíquia em voz alta e a emocionar-se até às lágrimas com a história da morte do bebé de Amélia n'O Crime do Padre Amaro (mal sabia que iria enjoar-se dessa história quando a tivesse que estudar e decorar as versões que dela  escrevera Eça até à final, apurada para não ferir tanto a susceptibilidade dos leitores, retirando gradualmente qualquer sopro de vida à criança no momento do afogamento). Leitura pela rama e ingénua mas que a fez entrar num outro mundo, onde as letras não vinham apenas com estruturas lineares ou histórias de amor lamechas. 
Uma buganvília sabida, era o que era, aquela que se içava pela varanda fora, torneando-a em cachos floridos, servindo de refúgio a pássaros, abelhas, borboletas, lagartixas e, imagine-se, a meninas.



sábado, janeiro 14, 2017

Confissão


(Bartolomeo Schedoni - The Martyrdom of Saint Sebastian)
"(...) às vezes quando vou à confissão com outros tipos da escola o padre manda a gente esperar pela nossa vez na sacristia que é pra não fazermos barulho na igreja e então na sacristia há lá uns santos e umas santas e eu gosto sobretudo de ver o santo Espedido porque parece um gajo daqueles filmes que se passam antigamente porque tem uma espécie de armadura e tudo mas esse não é o problema o problema é a santa Filomena e também a santa Madalena que são muito bonitas e até o são Sabastião a modos que me incomoda porque é tão bonito que parece uma miúda a gente só vê que não é uma miúda porque está quase nu e as santas não se põem assim e então o que acontece é que se eu não tinha pecado em pensamento antes de entrar na sacristia quando vou pró confessionário aí é que já pequei." 

João Aguiar, in Navegador Solitário





Clarinha entrou na sala num repente, cabelo em desalinho da correria desde a igreja.
"- Oh, mãe, o Sr. Padre fez-me perguntas esquisitas!"
"- Como assim, esquisitas, menina? Esta canalha!"
"- Sim! Fui à confissão esta manhã, depois da catequese, e o Sr. Padre... Mas não é pecado, eu dizer? Foi na confissão! Depois não tenho que me confessar disso?"
"- Mau! Diz lá que depois eu logo resolvo esse problema! Diabo da miúda!"
"- Eu disse que tinha batido no Zé da Mena e que (corou) menti ao pai ontem ao dizer que a mana estava no quarto quando estava ao portão com o José. Então, ele perguntou: E mais nada? Não tens tido pensamentos impuros? E eu nem sei o que ele queria dizer com aquilo, mãe! E repeti que só tinha aqueles pecados e mais nenhuns e ele a rir-se. E continuava: Tens a certeza que ainda não pensas em rapazes? E então eu..."
A mãe, com expressão carregada, interrompeu-a:
"- Tu nem me contes mais nada! Tu nem me contes mais nada!" Ia a sair da sala mas, virou-se para trás e ordenou:"- Tu nunca mais vais ao confessionário, ouviste? Nunca mais!"

Nem Clarinha, nem mais ninguém da família. Dali em diante, cada um se passou a confessar a Deus, em "ligação directa".