domingo, outubro 15, 2017

Infância

(Yana Ilieva)


                                                              Inocência
                                                              Núcleo
                                                              Felicidade
                                                              Ânsia
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terça-feira, outubro 10, 2017

Nascer gaivota

(Marc Chagall)

Era nas pequenas coisas que o amor fazia questão em manifestar-se: uma luz inexplicável no olhar, o coração acelerado, um humedecer de lábios, o eco de um riso à toa. Naquele dia, sentou-se à mesa da esplanada, atrevido, e contou-lhe de uma praia onde se nascia gaivota. Foi então que, sem surpresa, lhe cresceram asas e voou com ele.


domingo, outubro 01, 2017

Maria da Conceição

(George Clausen)

Corria o ano de 1950, Maria da Conceição tinha dez anos feitos há poucos dias quando a levaram do casebre de duas assoalhadas onde vivia com os pais e cinco irmãos. Num saco de serapilheira, três pares de cuecas de pano cru, duas combinações de terylene azul claro, um vestido azul escuro muito lavado, já com manchas brancas de tanto ser esfregado no tanque de pedra, e três pares de meias passajadas. A mãe não lhe dissera grande coisa, só a levantara mais cedo que o costume. Vem aí uma senhora da vila buscar-te, rapariga. Diz que te tem visto na missa e que lhe pareces de bom tamanho para a ajudares na lida da casa. Bem falta nos faz, mais uma jorna! Ela não percebera muito bem o que aquilo queria dizer até se ver puxada pelo braço para dentro de um automóvel branco por uma senhora gorda, com um cheiro tão doce que até o estômago se lhe revoltara. Minha mãe! Minha mãe! Chamara. Mas a mãe olhara-a sem pestanejar, e voltara-lhe as costas antes que desaparecesse na primeira curva da estrada.
Precisara de um banco para chegar à tábua de passar a ferro e engomar as blusas de linho fino da menina Carlota. Vê lá como as deixas, rapariguinha! Lava bem as mãos antes de lhes tocares! A menina vai usá-las para ir para o Liceu!

Maria da Conceição lembrou-se disso, hoje, enquanto abotoava a blusa de seda, que passara impecavelmente a ferro ontem à tarde, diante da janela debruada a cortinas de cores alegres da sua cozinha branca. Senhora de si mesma!
Suspirou, deixou as más lembranças para trás, e saiu para ir votar.


segunda-feira, setembro 18, 2017

Disse-lhe



Disse-lhe do mar, ora eivado de azul forte ou claro, das nuvens que corriam, ligeiras, competindo com bandos de gaivotas. Disse-lhe da imensidão da praia, das dunas castigadas pelo vento norte onde crescem cardos marítimos.
Nos olhos de ambos, um veleiro.


domingo, setembro 03, 2017

Urge Setembro


Nem sempre Agosto se veste de azul e oiro, ou há risos de meninos ao ligar inesperado dos aspersores da rega do jardim. Às vezes, vestem-se os dias de horas longas em que as roseiras crescem desordenadamente, deixando que os espinhos rasguem os dedos da jardineira, uma e outra vez.
Urgem nuvens que lavem o sangue das feridas da jardineira. Urge um Setembro, de orvalhos matinais, de frutos sumarentos. Urge o cicatrizar das feridas

sexta-feira, agosto 18, 2017

Narrador omnisciente

(Anna Kowalewicz)

Caía a noite devagar no quintal dos Avelares. A figueira secular estendia os braços fortes em direcção às janelas da sala de estar, como que a querer abri-las de par em par. Lá dentro, a luz difusa de um candeeiro de pé iluminava o cadeirão de couro castanho, onde uma mulher de rosto sardento se aninhava, descalça, embrenhada na leitura de um livro que, a avaliar pela sua expressão, deveria ser extremamente interessante.
Quem não se deixou impressionar pelo entusiasmo da leitora foram as duas crianças loiras que correram sala dentro, tropeçando no tapete persa, obrigando-a a acudir-lhes ao choro pouco convicto, mas que logo lhes serviu de desculpa para a puxarem numa dança de roda.
- Anda brincar, Mariana!
E Mariana rodopiou, dançou, cantou, rebolou no chão com elas em brincadeiras mil. Ouviam-se as gargalhadas cristalinas das três a ecoar pela casa. Só a mão terna do pai das mais pequenas conseguiu levá-las e deixar que o livro fosse retomado. De novo aberto, os olhos ávidos liam as palavras interrompidas. Havia, no entanto, para um observador mais atento, um pormenor estranho… Nunca a leitora mudara de página.
O narrador, felizmente capaz de fazer-se absolutamente invisível e espreitar-lhe por cima do ombro, aproximou-se, pé ante pé, e pôde enfim ver a prosa que tanto a encantava. Dentro do livro, o respeitável “Ensaios e artigos” de Agustina, numa folha de papel amarelo, um poema escrito à mão, a esferográfica de tinta azul, com letra elegante, marcadamente masculina, levemente inclinada para a direita. No fundo da folha, um nome, local e data. Os dedos de Mariana acariciavam os caracteres da assinatura e os olhos mantinham a avidez do primeiro minuto em que a vira no sofá da sala.