segunda-feira, dezembro 04, 2017

Palavras, raras...

Detalhe do "Retrato de Maria Trip" - Rembrandt  (Daqui)


Procurava as palavras como se fossem pérolas. Tomava fôlego, mergulhava em profundidade nas águas cálidas, e deixava-se ir, numa busca urgente, até que a asfixia a tomasse, empurrando-a para a superfície. Sabia das notícias que davam conta da escassez de palavras-pérola. Vieram outros pescadores!, diziam.  Ainda assim, continuaria a mergulhar. Ainda assim, encontrá-las-ia...


sexta-feira, novembro 17, 2017

As lágrimas da cebola

são as mulheres que


são as mulheres que

fazem chorar as cebolas

como se descascassem a própria vida

e, arredondando-se então, descobrissem

um corpo, o seu

uma vida, a sua

e, no entanto, nada que de verdade

pudessem seu chamar

ou talvez sim, mas só

aquela gota de água salpicando

um canto do avental onde

desponta uma flor de pano colorida que

ainda ontem ali não ardia


Bénédicte Houart, julho de 2010 © Bénédicte Houart



("Descascando Cebolas" - Lilly Martin Spencer)  daqui


Maceradas, as mãos que seguram a faca cortam, primeiro, para puxarem uma casca, depois outra, e outra e mais outra. Despem, aos poucos, a polpa branca e ácida das defesas cor de fogo. Ardem-lhe os olhos, à mulher das mãos maceradas. Supõe-se que seja da acrimónia do fruto quando nu. Ninguém percebe que é ela, avental visível numa flor gritante, ela é que está nua. Ninguém, senão ela, sente o frio do aço.


segunda-feira, novembro 06, 2017

Como água para a tua boca


You are perfect for me

because you’re psychic
no one else could understand me
the way you

do and

I say
Drink Me

I say it to you silently
but it calls forth in me

the water for you
the water you asked for


(Rebecca Wolff)





Tu és perfeito para mim 

porque tu és adivinho 
ninguém mais me poderia entender 
da mesma forma que tu

me entendes e

eu digo 
Bebe-me

eu digo-to em silêncio 
mas dizê-lo invoca em mim

a água para ti 
a água tu pediste

(Rebecca Wolff - traduzida por Maria Eu)




domingo, outubro 22, 2017

A fuga breve

(imagem retirada da internet, sem referência de autor)

Vénus, declaradamente enregelada pelo vento oeste, músculos hirtos do equilíbrio periclitante na concha, tinha-se cansado da posição estática, dos olhares de admiração sem retorno. Sabia que as mulheres tinham alma rebelde. Outras lhe fariam companhia, decerto, numa aventura fora dos museus, longe dos holofotes da fama. Paris não era longe! Ouvira dizer que, a Mona Lisa, se começava a notar um progressivo apagamento do sorriso. Sandro* compreenderia a sua inquietude. Afinal, ele criara-a! Aproveitou a calada da noite e uma distracção do guarda (sorridente, ele, a sussurrar palavras de amor ao telemóvel) para se escapulir. No vestiário, encontrou roupa das guias. Ainda experimentou um par de sandálias, mas os seus pés não suportaram a prisão das tiras de couro. Descobriu que, por estranha magia, bastava fechar os olhos e pensar num local para se encontrar nele. Foi assim que se viu na Piazza del Duomo e, num outro instante, em pleno Louvre, desafiando a Gioconda para uma fuga. Tentou-a com o vestido amarelo que levara consigo, uns sapatos de tacão, e com um relógio Swatch há muito abandonado na secção de perdidos e achados da Galleria degli Uffizi.
- Et maintenant? perguntou-lhe a parceira.
- Haia! A "Mona Lisa do Norte"!
A rapariga com brinco de pérola não pensou duas vezes perante o desafio. Perdeu o ar melancólico, soltou os cabelos, enfiou as calças e a blusa sem mangas que lhe levavam e, com uma gargalhada reprimida há séculos, exclamou:
- Bora lá buscar a mais louca de todas! A única que tem o seu próprio museu!
Quando se deram conta, a Cidade do México estava à vista, e Frida Kahlo, com um toucado de flores, completou a quadrilha.

A vaidade, porém, prendeu-as de novo, quando um pintor lhes pediu, com voz sedutora, que posassem as quatro, tão  parecidas com deusas, no sofá do aparthotel onde se hospedava. Ainda hesitaram, mas Frida derreteu-se com as doces palavras de Diego (tal e qual o Rivera) e a ela ninguém contradizia.

*Sandro Botticelli



domingo, outubro 15, 2017

Infância

(Yana Ilieva)


                                                              Inocência
                                                              Núcleo
                                                              Felicidade
                                                              Ânsia
                                                              Navegação
                                                              Carícia
                                                              Imaginação
                                                              Abrigo



terça-feira, outubro 10, 2017

Nascer gaivota

(Marc Chagall)

Era nas pequenas coisas que o amor fazia questão em manifestar-se: uma luz inexplicável no olhar, o coração acelerado, um humedecer de lábios, o eco de um riso à toa. Naquele dia, sentou-se à mesa da esplanada, atrevido, e contou-lhe de uma praia onde se nascia gaivota. Foi então que, sem surpresa, lhe cresceram asas e voou com ele.