quinta-feira, julho 13, 2017

Parecenças II


Chegado a casa, o Engenheiro Castro, António Alberto de seu nome, subiu apressadamente a escada que dava para o quarto, libertando-se da roupa em gestos largos, enquanto se dirigia ao duche, deixando-a peça a peça, quais peles de animais esfolados, caída pelo chão. Mariana, sempre com o seu aventalinho imaculadamente branco destacando-se no preto do uniforme, logo se encarregaria de a recolher, uma a uma, curvando-se elegantemente, como ele tanto gostava de apreciar, deixando que as curvas deliciosamente arredondadas das ancas e do rabo rematassem as pernas em tensão muscular.
Ah! Mariana! Como lhe conhecia as pregas mais recônditas, os sinais escuros na mama direita, a marca arroxeada, de nascença, em forma de borboleta, na base da nuca, que ficava a descoberto quando desviava o cabelo! Tinham crescido juntos e, desde a morte do pai e da mãe naquele terrível acidente de automóvel, era nela que encontrava aconchego e carinho. Escapava-se do quartinho esconso nos anexos da casa dos Cunha e Villar e corria para os seus (a)braços (ou melhor, a dar-lhe os seus) noite após noite, numa entrega total, sem nunca pedir nada a não ser umas horas de carícias e palavras ternas.
Foi a ela que perguntou, ainda impressionado com a parecença com o falecido: Meu amor, achas-me assim tão igual ao burgesso do Joãozinho?
Foi também ela que, com voz doce e apaixonada, entre beijos ardentes, o sossegou: Nem pensar, meu adorado! Tu és muito mais bonito!

Nós, que sabemos como são as mulheres apaixonadas e os homens demasiado crédulos, sorrimos, enquanto cogitamos se o pai do engenheiro e a mãe do Joãzinho não teriam, como rezam as más línguas da aldeia, caído na tentação da carne.


12 comentários:

  1. Maria, se me pedissem para pensar num novo termo para a tentação, eu recomendaria a palavra «maçaneta», porque o que são essas protuberâncias colocadas nas portas se não para nos tentar...
    E por aqui as tentações estão ao rubro:))

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    1. Huuummmmm... Maçaneta? Talvez para condizer com o rubicundo das formas de Botero? :)

      Beijinhos, Legionário.

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  2. As mulheres são poderosas quando querem Maria e sabem como dar felicidade à um homem. Quando querem :)

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  3. É curioso Maria, a propósito deste Post lembrei-me da série "Madre Paula" que está a passar na rtp1, e também de um Post da Maria publicado numa terça-feira de Agosto 26, 2014, com o titulo "A melhor amante" exactamente sobre esta mMdre relatada na obra "Memorial do Convento", de José Saramago, na qual o monarca caracteriza Madre Paula como "...flor de claustro, perfumada de incenso, carne gloriosa..."

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    1. Engraçado lembrares-te disso! Também pensei nesse post quando vi o anúncio à série.

      Beijinhos :)

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  4. Há convergências fatais, no sentido de inevitáveis, mas, havendo-as, melhor será que fiquem perfeitamente registadas para memória futura, não vá haver equívocos futuros.
    Os excessos de arredondamento, tipo Botero, atiçam pedras...
    Bj, Maria.

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    1. Os meandros da histórias de encontros e desencontros amorosos nas aldeias deste nosso Portugal dariam muitos romances para além daqueles que foram escritos.

      Beijinhos, Agostinho :)

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  5. Pois, o amor!
    O desejo!
    A carência...

    Gostei de ler.
    Vou voltar.

    abraço
    Lola

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  6. gostei muito de ler este trecho, ai o amor, sempre tão ansioso e doce,bjs e boa semana

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    1. Sempre, não é, Zulmira? Obrigada!

      Beijo :)

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